LITERATURA BRASILEIRA
Textos literrios em meio eletrnico
Casa, No Casa, de Machado de Assis


Edio de Referncia: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, 
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. 

Se alguma das minhas leitoras morasse na Rua de S.Pedro da cidade 
nova, h cousa de quinze anos, e estivesse  janela na noite de 16 de 
maro, entre uma e duas horas, teria ocasio de presenciar um caso 
extraordinrio. 
Morava ali, entre a Rua Formosa e a Rua das Flores, uma moa de vinte 
e dous anos, bonita como todas as heronas de romances e contos, a 
qual moa na sobredita noite de 16 de maro, entre uma e duas horas, 
levantou-se da cama e a passo lento foi at  sala com uma luz na mo. 
No estando as janelas fechadas, a leitora, caso morasse defronte, veria 
a nossa herona pousar a vela sobre um aparador, abrir um lbum, tirar 
um retrato, que no saberia se era de homem ou de mulher, mas que eu 
lhe afirmo ser de mulher. 
Tirado o retrato do lbum, pegou a moa na vela, desceu a escada, abriu 
a porta da rua e saiu. A leitora ficaria naturalmente assombrada com tudo 
isto; mas que no diria quando a visse seguir pela rua acima, voltar a das 
Flores, ir at  do Conde, e parar  porta de uma casa? 
Justamente  janela dessa casa estava um homem, rapaz ainda, vinte e 
sete anos, olhando para as estrelas e fumando um charuto. 
A moa parou. 
O moo espantou-se do caso, e vendo que ela parecia querer entrar, 
desceu a escada, com uma vela acesa e abriu a porta. 
A moa entrou. 

 Isabel! exclamou o rapaz deixando cair a vela no cho.
Ficaram s escuras no corredor. Felizmente trazia o moo fsforos na
algibeira, acendeu outra vez a vela e fitou os olhos na recm-chegada.
Isabel (tal era o seu verdadeiro nome) estendeu o retrato ao rapaz, sem

dizer palavra, com os olhos fitos no ar. 
O rapaz no pegou logo no retrato. 

 Isabel! exclamou ele outra vez mas j com a voz sumida. A moa
deixou cair o retrato no cho, voltou as costas e saiu. O dono da casa
ainda mais aterrado ficou.
 Que  isto? dizia ele; estar louca?
Ps a vela sobre um degrau da escada, saiu  rua, fechou a porta e
seguiu lentamente atrs de Isabel, que foi pelo mesmo caminho at
entrar em casa.
O mancebo respirou quando viu Isabel entrar na casa; mas ficou ali
alguns instantes, a olhar para a porta, sem nada compreender e ansioso
por que chegasse o dia. Todavia era foroso voltar para a Rua do Conde;
lanou um ltimo olhar s janelas da casa e retirou-se.
Ao entrar em casa apanhou o retrato.
 Lusa! disse ele.
Esfregou os olhos como se duvidasse do que via, e ficou parado na
escada a olhar largos minutos para o retrato.
Era preciso subir.
Subiu.
 Que querer isto dizer? disse ele j em voz alta como se falasse a
algum. Que audcia foi essa de Isabel? Como  que uma moa, filha de
famlia, sai assim de noite para... Mas estarei eu sonhando?
Examinou o retrato, e viu que tinha nas costas as seguintes linhas:
 minha querida amiga Isabel, como lembrana de eterna amizade.
LUSA.
Jlio (era o nome do rapaz) no pde descobrir nada por mais que
parafusasse, e parafusou muito tempo, j deitado no sof da sala, j
encostado  janela.
E na verdade quem seria capaz de descobrir o mistrio daquela visita a
semelhante hora? Tudo parecia antes uma cena de drama ou romance
ttrico, do que um ato natural da vida.
O retrato... O retrato tinha certa explicao. Jlio andava quinze dias
antes a trocar cartas com o original, a formosa Lusa, moradora no Rocio
Pequeno, hoje Praa Onze de Junho.
Todavia, por mais agradvel que lhe fosse receber o retrato de Lusa,
como admitir a maneira por que lho levaram, e a pessoa, e a hora, e as

circunstncias? 

 Sonho ou estou doudo! concluiu Jlio depois de longo tempo.
E chegando  janela, acendeu outro charuto.
Nova surpresa o esperava.
Vejamos qual foi ela.
CAPTULO II 

No havia fumado ainda uma tera parte do charuto, quando viu dobrar a 
esquina um vulto de mulher, caminhando lentamente, e parar  porta da 
casa dele. 

 Outra vez! exclamou Jlio. Quis descer logo; mas as pernas
comeavam a tremer-lhe. Jlio no era tipo de extrema valentia; creio at
que se lhe chamarmos medroso no estaremos longe da verdade.
O vulto, entretanto, estava  porta; era foroso tir-lo dali, a fim de evitar
um escndalo.
"Desta vez, pensou ele pegando na vela, hei de interrog-la; no a deixo
sair sem me dizer o que h. Infeliz. Parece-me que est douda!"
Desceu; abriu a porta.
 Lusa! exclamou.
A moa estendeu-lhe um retrato; Jlio pegou nele com nsia e murmurou
consigo: "Isabel!"
Era efetivamente o retrato da primeira moa que a segunda lhe trazia.
No ser preciso dizer ou repetir que Jlio namorava tambm a Isabel, e
a leitora compreende facilmente que, tendo ambas descoberto o segredo
uma da outra, ambas foram mostrar ao namorado que estavam cientes
da sua duplicidade.
Mas por que motivo tais cousas se davam assim revestidas de
circunstncias singulares e tenebrosas?
No era mais natural mandarem-lhe os retratos dentro de uma
sobrecarta?
Tais eram as reflexes que Jlio fazia, com o retrato numa das mos e a
vela na outra, enquanto j de volta entrava em casa.
No ser preciso dizer que o nosso Jlio no dormiu o resto da noite.
Chegou a ir  cama e a fechar os olhos; tinha o corpo modo e
necessidade de sono; mas a imaginao velava, e a madrugada veio
ach-lo acordado e aflito.

No dia seguinte foi visitar Isabel; achou-a triste; falou-lhe; mas quando 
quis dizer-lhe alguma cousa do sucesso, a moa afastou-se dele, talvez 
porque adivinhasse o que ia ele dizer-lhe, talvez porque j estivesse 
aborrecida de o ouvir. 
Jlio foi a casa de Lusa, achou-a no mesmo estado, as mesmas 
circunstncias se deram. 
" claro que descobriram o segredo uma da outra, dizia ele consigo. No 
h remdio seno desfazer a m impresso de ambas. Mas como se me 
no querem ouvir? Ao mesmo tempo desejava explicao do ato atrevido 
que ontem praticaram, salvo se foi sonho meu, o que  bem possvel. Ou 
ento estarei doudo..." 
Antes de ir adiante, e no ser longe porque a histria  pequena, 
convm dizer que este Jlio no tinha paixo real por nenhuma das duas 
moas. Comeou o namoro com Isabel por ocasio de uma ceia de 
Natal, e travou relaes com a famlia que o recebera muito bem. Isabel 
correspondeu um pouco ao namoro de Jlio, sem todavia lhe dar 
grandes esperanas porque ento andava tambm  corda de um oficial 
do exrcito que teve de embarcar para o Sul. S depois que ele 
embarcou foi que Isabel de todo se voltou para Jlio. 
Ora, o nosso Jlio j ento lanara as suas baterias contra a outra 
fortaleza, a formosa Lusa, amiga de Isabel, e que desde princpio 
aceitou o namoro com ambas as mos. 
Nem por isso rejeitou a corda que lhe dava Isabel; manteve-se entre as 
duas sem saber qual delas devia preferir. O corao no tinha a este 
respeito opinio assentada. Jlio no amava, repito; era incapaz de 
amar... Seu fim era casar com uma moa bonita; ambas o eram, restavalhe saber qual delas lhe convinha mais. 
As duas moas, como vimos pelos retratos, eram amigas, mas falavamse de longe em longe, sem que nessas poucas vezes houvessem 
comunicado os segredos atuais do seu corao. Ocorreria isso agora e 
seria essa a explicao da cena dos retratos? Jlio pensou efetivamente 
que elas haviam enfim comunicado o seu namoro com ele; mas custavalhe a crer que to atrevidas fossem ambas, que sassem da casa 
naquela singular noite.  proporo que o tempo se passava, Jlio 
inclinava-se a crer que o fato no passasse de uma iluso sua. 
Jlio escreveu uma carta a cada uma das duas moas, quase do mesmo 


teor, pedindo a explicao da frieza que ambas ultimamente lhe
mostravam. Cada uma das cartas terminava perguntando "se era to
cruelmente que se devia pagar um amor nico e delirante".
No teve resposta imediatamente como esperava, mas dous dias depois,
no do mesmo teor, mas no mesmo sentido.
Ambas lhe diziam que pusesse a mo na conscincia.
"No h dvida, pensou ele consigo, estou pilhado. Como sairei eu desta
situao?"
Jlio resolveu atacar verbalmente as duas fortalezas.


 Isto de cartas no  bom recurso para mim, disse ele; encaremos o
inimigo;  mais seguro.
Escolheu Isabel em primeiro lugar. Haviam j passado seis ou sete dias
depois da cena noturna. Jlio preparou-se mentalmente com todas as
armas necessrias ao ataque e  defesa e dirigiu-se para casa de Isabel,
que era como sabemos na Rua de S. Pedro.
Foi-lhe difcil achar-se a ss com a moa; porque a moa que das outras
vezes era a primeira a buscar ocasio de lhe falar, agora esquivava-se a
isso. O rapaz entretanto era teimoso; tanto fez que pde pilh-la numa
janela, e ali ex abrupto disparou-lhe esta pergunta:
 No me dar a explicao dos seus modos de hoje e da carta com
que respondeu  minha ltima?
Isabel calou-se.
Jlio repetiu a pergunta, mas j com um tom que exigia resposta
imediata. Isabel fez um gesto de aborrecimento e disse:
 Respondo o que lhe disse na carta; ponha a mo na conscincia.
 Mas que fiz eu ento?
Isabel sorriu-se com um ar de lstima.
 O que fez? perguntou ela.
 Sim, o que fiz?
 Deveras, ignora?
 Quer que lhe jure?
 Queria ver isto...
 Isabel, essas palavras!...
 So dum corao ofendido, interrompeu a moa com amargura. O
senhor ama a outra.
 Eu?...

Aqui desisto de descrever o gesto de espanto de Jlio; a pena nunca o 
poderia fazer, nem talvez o pincel. Era o agente mais natural, mais 
aparentemente espontneo que ainda se viu neste mundo, a tal ponto 
que a moa vacilou, e atenuou as suas primeiras palavras com estas: 

 Pelo menos, parece...
 Mas como?
 Vi-o olhar com certo ar para a Lusa, quando outro dia ela aqui
esteve...
 Nego.
 Nega? Pois bem; mas negar tambm que, vendo o retrato dela, no
meu lbum, me disse:  to bonita esta moa!
 Pode ser que o dissesse; creio at que o disse... h cousa de oito
dias; mas que prova isso?
 No sei se prova muito, mas em todo o caso foi bastante para fazer
doer a um corao amante.
 Acredito, observou Jlio; seria porm bastante para o audacioso
passo que deu?
 Que passo? perguntou Isabel abrindo muito os olhos.
Jlio ia explicar as suas palavras, quando um primo de Isabel se
aproximou do grupo e a conversa ficou interrompida.
No foi porm sem algum resultado o pouco tempo em que falaram,
porque, ao despedir-se Jlio no fim da noite, Isabel apertou-lhe a mo
com certa fora, indcio certo de que as pazes estavam feitas.
 Agora a outra, disse ele saindo da casa de Isabel.
CAPTULO III 

Lusa estava ainda como Isabel, fria e reservada para com ele. Parece, 
entretanto, que suspirava por lhe falar, foi ela a primeira que procurou 
uma ocasio de ficar a ss com ele. 

 J estar menos cruel comigo? perguntou Jlio. 
 Oh! no. 
 Mas que lhe fiz eu? 
 Pensa ento que eu sou cega? perguntou-lhe Lusa com olhos 
indignados; pensa que eu no vejo as cousas? 
 Mas que cousas? 
 O senhor anda de namoro com a Isabel. 

 Oh! que idia! 
 Original, no ? 
 Originalssima! Como descobriu semelhante cousa? Conheo aquela
moa h muito tempo, temos intimidade, mas no a namoro nem tal idia
tive, nunca na minha vida.
  por isso que lhe deita uns olhos to ternos?...
Jlio levantou os ombros com um ar to desdenhoso que a moa
acreditou logo nele. No deixou de lhe dizer, como a outra lhe dissera:
 Mas para que olhou outro dia com tanta admirao para o retrato dela,
dizendo at com um suspiro: Que moa gentil!
  verdade isso, menos o suspiro, respondeu Jlio; mas onde est o
mal em achar uma moa bonita, se nenhuma me parece mais bonita que
voc, e sobretudo nenhuma  capaz de me prender como voc?
Jlio disse ainda muito mais por este teor velho e gasto, mas de efeito
certo; a moa estendeu-lhe a mo dizendo:
 Ento era engano meu?
 Oh! meu anjo! engano profundo!
 Est perdoado... com uma condio.
 Qual?
  que no h de cair em outra.
 Mas se eu no ca nesta!
 Jure sempre.
 Pois juro... com uma condio.
 Diga.
 Por que razo no tendo plena certeza de que eu amava a outra (e se
a tivesse no me falava mais decerto), por que razo, pergunto eu, foi
voc naquela noite...
 O ch est na mesa; vamos tomar ch! disse a me de Lusa
aproximando-se do grupo.
Era foroso obedecer; e nessa noite no houve mais ocasio de explicar
o caso.
Nem por isso Jlio saiu menos contente da casa de Lusa.
"Esto ambas vencidas e convencidas, disse ele consigo; agora 
preciso escolher e acabar com isto."
Aqui  que estava a dificuldade. J sabemos que ambas eram
igualmente belas, e Jlio no procurava outra condio. No era fcil

escolher entre duas criaturas igualmente dispostas para ele.
Nenhuma delas tinha dinheiro, condio que podia fazer pender a
balana posto que Jlio fosse indiferente nesse ponto. Tanto Lusa como
Isabel eram filhas de funcionrios pblicos que apenas lhes deixavam um
escasso montepio. Sem uma forte razo que fizesse pender a balana,
era difcil a escolha naquela situao.
Alguma leitora dir que por isso mesmo que eram de igual condio e
que ele as no amava de corao, era fcil a escolha. Bastava-lhe fechar
os olhos e agarrar a primeira que lhe ficasse  mo.
Erro manifesto.
Jlio podia e era capaz de fazer isso. Mas no mesmo instante que
escolhesse Isabel ficava com pena de no ter escolhido Lusa, e vice-
versa, donde se v que a situao era para ele intricada.
Mais de uma vez levantou-se ele da cama com a resoluo assentada:


 Vou pedir a mo da Lusa.
A resoluo durava-lhe s at o almoo. Acabado o almoo, ia ver (pela
ltima vez) Isabel e logo afrouxava com pena de a perder.
"H de ser esta!" pensava ele.
E logo lembrava-se de Lusa e no escolhia nem uma nem outra.
Tal era a situao do nosso Jlio, quando se deu a cena que passo a
referir no captulo seguinte.
CAPTULO IV 

Trs dias depois da conversa de Jlio com Lusa, foi esta passar o dia 
em casa de Isabel, acompanhada de sua me. 
A me de Lusa era de opinio que a filha era o seu retrato vivo, cousa 
que ningum acreditava por mais que ela o repetisse. A me de Isabel 
no ousava ir to longe mas afirmava que, no tempo de sua mocidade, 
fora ela muito parecida com Isabel. Esta opinio era recebida com 
incredulidade pelos rapazes e com resistncia pelos velhos. At o major 
Soares, que fora o primeiro namorado da me de Isabel, insinuava que 
essa opinio devia ser recebida com extrema reserva. 
Oxal porm fossem as duas moas como suas mes eram, dous 
coraes de pomba, que amavam estremecidamente as filhas, e que 
eram com justia dous tipos de austeridade conjugal. 
As duas velhas entregaram-se s suas conversas e consideraes sobre 


arranjos de casa ou assuntos de pessoas conhecidas, enquanto as duas 
moas tratavam de modas, msicas, e um pouco de amores. 

 Ento o teu tenente no volta do Sul? disse Lusa.
 Eu sei! Parece que no.
 Tens saudades dele?
 E ter ele saudades de mim?
 Isso  verdade. Todos esses homens so assim, disse Lusa com
convico; muita festa quando se acham presentes, mas ausentes so
temveis... valem tanto como o nome que se escreve na areia: vem a
gua e lambe tudo.
 Bravo, Lusa! Ests poeta! exclamou Isabel. J falas em areias do
mar!
 Pois olha, no namoro nenhum poeta nem homem do mar.
 Quem sabe?
 Sei eu.
  ento?...
 Um rapaz que tu conheces!
 J sei,  o Avelar.
 Deus nos acuda! exclamou Lusa. Um homem vesgo.
 O Rocha?
 O Rocha anda todo cado pela Josefina.
 Sim?
  uma lstima.
 Nasceram um para o outro.
 Sim, ela  uma moleirona como ele.
As duas moas gastaram assim algum tempo a tasquinhar na pele de
pessoas que ns no conhecemos nem precisamos disso, at que
voltaram ao assunto capital da conversa.
 J vejo que no pode adivinhar quem  o meu namorado, disse Lusa.
 Nem voc o meu, observou Isabel.
 Bravo! ento o tenente...
 O tenente est pagando.  muito natural que as rio-grandenses o
tenham encantado. Pois agente-se...
Enquanto Isabel dizia estas palavras, Lusa ia folheando o lbum de
retratos que estava sobre a mesa. Chegando  folha onde sempre vira o
seu retrato, a moa estremeceu. Isabel notou-lhe o movimento.

 Que ? disse ela. 
 Nada, respondeu Lusa fechando o lbum. Tiraste o meu retrato 
daqui? 
 Ah! exclamou Isabel, isso  uma histria singular. O retrato foi passar 
s mos de terceira pessoa, a qual afirma que fui eu que lho levei alta 
noite... Ainda no pude descobrir esse mistrio... Lusa j ouviu de p 
estas palavras. Seus olhos, muito abertos, fitaram-se no rosto da amiga. 
 Que ? disse esta. 
 Sabes bem o que ests dizendo? 
 Eu? 
 Mas isso foi o que me aconteceu tambm com o teu retrato... 
Naturalmente era zombaria comigo e contigo... Essa pessoa... 
 Foi o Jlio Simes, o meu namorado... 
Aqui devia eu pr uma linha de pontos para significar o que se no pode 
pintar, o espanto das duas amigas, as diferentes expresses que tomou 
a fisionomia de cada uma delas. No tardaram as explicaes; as duas 
rivais reconheceram que o seu namorado comum era pouco mais ou 
menos um patife, e que o dever de honra e de corao era tomar dele 
uma vingana. 
 A prova de que ele nos enganava uma  outra, observava Isabel,  
que os nossos retratos apareceram l e foi ele naturalmente quem os 
tirou. 
 Sim, respondeu Lusa, mas  certo que eu sonhei alguma cousa que 
combina com a cena que ele alega. 
 Tambm eu... 
 Sim? Eu sonhei que me haviam falado do namoro dele com voc, e 
que, tirando o retrato do lbum, fora lev-lo  casa dele. 
 No  possvel! exclamou Isabel. O meu sonho foi quase assim, ao 
menos no final. No me disseram que ele tinha namoro com voc; mas 
eu mesma vi e ento fui levar o retrato... 
O espanto aqui foi ainda maior que da primeira vez. Nem estavam s 
espantadas as duas amigas; estavam aterradas. Embalde procuravam 
explicar a identidade do sonho, e mais que tudo a coincidncia dele com 
a presena dos retratos em casa de Jlio e a narrao que este fizera da 
noturna aventura. 
Estavam assim nesta duvidosa e assustadora situao, quando as mes 

vieram em auxlio delas. As duas moas, estando  janela, ouviram-lhes 
dizer: 

 Pois  verdade, minha rica sr Anastcia, estou no mesmo caso da
senhora. Creio que a minha filha  sonmbula, como a sua.
 Tenho uma pena com isto!
 E eu ento!
 Talvez casando-as...
 Sim, pode ser que banhos de igreja...
Informadas assim as duas moas da explicao do caso, ficaram um
tanto abaladas; mas a idia de Jlio e suas travessuras tomou logo o
lugar que lhe competia na conversa das duas rivais.
 Que pelintra! exclamavam as duas moas. Que velhaco! que prfido!
O coro de maldies foi ainda mais longe. Mas tudo acaba neste mundo,
principalmente um coro de maldies; o jantar interrompeu aquele; as
duas moas foram de brao dado para a mesa e afogaram as suas
mgoas num prato de sopa.
CAPTULO V 

Jlio, sabendo da visita, no se atreveu a ir encontrar as duas moas
juntas. No p em que as cousas se achavam era impossvel evitar que
descobrissem tudo, pensava ele.
No dia seguinte porm foi de tarde  casa de Isabel, que o recebeu com
muita alegria e ternura.
"Bom! pensou o namorado, nada contaram uma  outra."


 Engana-se, disse Isabel adivinhando pela alegria do rosto dele qual 
era a reflexo que fazia. Pensa naturalmente que Lusa nada me disse? 
Disse-me tudo, e eu nada lhe ocultei... 
 Mas... 
 No me queixo do senhor, continuou Isabel com indignao; queixome dela que devia ter percebido e percebeu o que entre ns havia, e 
apesar disso aceitou a sua corte. 
 Aceitou, no; posso dizer que fui compelido. 
 Sim? 
 Agora posso falar-lhe com franqueza; a sua amiga Lusa  uma 
namoradeira desenfreada. Eu sou rapaz; a vaidade, a idia de 
passatempo, tudo isso me arrastou, no a namor-la, porque eu era 

incapaz de esquecer a minha formosa Isabel; mas a perder algum 
tempo... 

 Ingrato!
 Oh! no! nunca, a boa Isabel!
Aqui comeou uma renovao de protestos da parte do namorado, que
declarou amar mais que nunca a filha de D. Anastcia.
Para ele a cousa estava resolvida. Depois da explicao dada e dos
termos em que falara da outra, a escolha natural era Isabel.
Sua idia foi no procurar mais a outra. No o pde fazer  vista de um
bilhete que no fim de trs dias recebeu da moa. Pedia-lhe ela que fosse
l instantemente. Jlio foi. Lusa recebeu-o com um sorriso triste.
Quando puderam falar a ss:
 Quero saber da sua boca o meu destino, disse ela. Estarei
definitivamente condenada?
 Condenada!
 Sejamos francos, continuou a moa. Eu e a Isabel falamos no senhor;
vim a saber que tambm a namorava. A sua conscincia lhe dir que
praticou um ato indigno. Mas enfim, pode resgat-lo com um ato de
franqueza. A qual de ns escolhe, a mim ou a ela?
A pergunta era de atrapalhar o pobre Jlio, nada menos que por duas
grandes razes: a primeira era ter de responder em face; a segunda era
ter de responder em face de uma moa bonita. Hesitou alguns largos
minutos. Lusa insistiu; mas ele no se atrevia a romper o silncio.
 Bem, disse ela, j sei que me despreza.
 Eu!
 No importa; adeus.
Ia a voltar as costas; Jlio segurou-lhe na mo.
 Oh! no! Pois no v que este meu silncio  de comoo e de
confuso. Confunde-me realmente que descobrisse uma cousa em que
eu pouca culpa tive. Namorei-a por passatempo; no foi Isabel nunca
uma rival sua no meu corao. Demais, ela no lhe contou tudo;
naturalmente escondeu a parte em que a culpa lhe cabia. E a culpa 
tambm sua...
 Minha?
 Sem dvida. Pois no v que ela tem interesse em separar-nos?... Se
lhe referir, por exemplo, o que se est passando agora entre ns fique

certa de que ela h de inventar alguma cousa para de todo separar-nos, 
contando depois com a sua beleza para cativar o meu corao, como se 
a beleza de uma Isabel pudesse fazer esquecer a beleza de uma Lusa. 
Jlio ficou satisfeito com este pequeno discurso, assaz astuto para 
enganar a moa. Esta, depois de algum tempo de silncio, estendeu-lhe 
a mo: 

 Jura-me o que est dizendo? 
 Juro. 
 Ento ser meu? 
 Unicamente seu. 
Assim celebrou Jlio os dous tratados de paz, ficando na mesma 
situao em que se achava anteriormente. J sabemos que a sua fatal 
indeciso era a causa nica da crise em que os acontecimentos o 
puseram. Era foroso decidir alguma cousa; e a ocasio ofereceu-se-lhe 
propcia. 
Perdeu-a, entretanto; e dado que quisesse casar, e queria, nunca 
estivera mais longe do casamento. 
CAPTULO VI 

Cerca de seis semanas foram assim correndo sem resultado algum
prtico.
Um dia, achando-se em conversa com um primo de Isabel, perguntou-lhe
se teria gosto em v-lo na famlia.


 Muito, respondeu Fernando (era assim o nome do primo). 
Jlio no deu explicao da pergunta. Instado respondeu: 
 Fiz-lhe a pergunta por uma razo que saber mais tarde. 
 Querer talvez casar com alguma das manas?... 
 No posso dizer nada por ora. 
 Olha aqui, Teixeira, disse Fernando, a um terceiro rapaz, primo de 
Lusa, e que nessa ocasio se achava em casa de D. Anastcia. 
 Que ? perguntou Jlio assustado. 
 Nada, respondeu Fernando, vou comunicar ao Teixeira a notcia que o 
senhor me deu. 
 Mas eu... 
  nosso amigo, posso ser franco. Teixeira, sabe o que me disse o 
Jlio? 

 Que foi? 
 Disse-me que vai ser meu parente. 
 Casando com alguma irm tua. 
 No sei; mas disse isso. No te parece motivo de congratulao? 
 Sem dvida, concordou Teixeira,  um perfeito cavalheiro. 
 So obsquios, interveio Jlio; e se eu alguma vez alcanasse a 
fortuna de entrar... 
Jlio interrompeu-se; lembrou-se que Teixeira podia ir contar tudo  
prima Lusa, e fosse inibido de escolher entre ela e Isabel. Os dous 
quiseram saber o resto; mas Jlio preferiu convid-los a jogar o solo, e 
no houve meio de arrancar-lhe palavra. 
A situao porm devia acabar. 
Era impossvel continuar a vacilar entre as duas moas, que ambas lhe 
queriam muito, e a quem ele queria com perfeita igualdade no sabendo 
qual delas escolhesse. 
"Sejamos homem, disse Jlio consigo. Vejamos: qual delas devo ir 
pedir? A Isabel. Mas a Lusa  to bonita! Ser a Lusa. Mas  to 
formosa a Isabel! Que diabo! Por que razo no h de uma delas ter um 
olho furado? ou uma perna torta!" 
E depois de algum tempo: 
"Vamos, sr. Jlio, dou-lhe trs dias para escolher. No seja tolo. Decida 
com isto por uma vez." 
E enfim: 
"Verdade  que uma delas h de odiar-me. Mas pacincia! fui eu mesmo 
que me meti nesta embrulhada; e o dio de uma moa no pode doer 
muito. Avante!" 
No fim de dous dias ainda ele no tinha escolhido; recebeu porm uma 
carta de Fernando concebida nestes termos: 
Meu caro Jlio. 
Participo-lhe que brevemente casarei com a prima Isabel; desde j o 
convido para a festa; se soubesse como estou contente! Venha c para 
conversarmos. 
Fernando. 
No  preciso dizer que Jlio foi s nuvens. O passo de Isabel 
simplificava muito a situao dele; todavia, no queria ser assim 
despedido como um tolo. Exprimiu a sua clera por meio de alguns 

murros na mesa; Isabel, por isso mesmo que j no a podia possuir, 
parecia-lhe agora mais bonita que Lusa. 

 Lusa! Pois ser Lusa! exclamou ele. Essa sempre me pareceu muito
mais sincera que a outra. At chorou, creio eu, no dia da reconciliao.
Saiu nessa mesma tarde para ir visitar Lusa; no dia seguinte iria pedi-la.
Em casa dela foi recebido como sempre. Teixeira foi o primeiro a dar-lhe
um abrao.
 Sabe, disse o primo de Lusa apontando para a moa, sabe que vai
ser a minha noiva?
No me atrevo a dizer o que se passou na alma de Jlio; basta dizer que
jurou no casar, e que morreu h pouco casado e com cinco filhos.
Ncleo Pesquisas em Informtica. Literatura e Lingstica 


